“A Locomotiva 40100 Continua nos Trilhos”: Neto Spinelly revive bastidores da campanha que virou símbolo político


Por Evandro Lira | Secretário do Povo

Tem gente que entra na política pela porta da frente. Tem gente que entra pela janela. E tem gente que entra porque um amigo sentou numa sala, olhou nos olhos e disse: "Acredita em mim. Isso vai ser diferente."

Neto Spinelly entrou assim.

Publicitário, locutor e produtor de campanhas eleitorais há quase duas décadas, ele já trabalhou em Pernambuco, Sergipe, Pará, Ceará e em vários cantos do interior nordestino. Já ajudou a eleger prefeitos, vereadores e deputados. Já sentiu o gosto da vitória e o amargor da derrota. E tudo isso começou numa conversa simples, na casa de uma senhora chamada Dona Marita, em Santa Cruz do Capibaribe.

Hoje, no Secretário do Povo, Neto Spinelly conta essa história do começo.


Evandro Lira: Neto, muita gente conhece o profissional. Mas pouca gente conhece a história de como tudo começou. É verdade que você resistia à ideia de trabalhar com política?

Neto Spinelly: É verdade. Eu sempre tive uma certa resistência. Gostava de gravação, edição, rádio, publicidade, produção. Mas política não fazia parte dos meus planos. Já tinha participado de uma campanha antes, mas nunca imaginei que aquilo se tornaria uma das áreas mais importantes da minha vida profissional.

Evandro: Então quem conseguiu mudar sua cabeça?

Neto: Diogo Moraes. E eu lembro exatamente onde aconteceu. Foi na casa da avó dele, Dona Marita, já falecida. Ele começou a falar dos planos que tinha para a campanha de vereador em Santa Cruz do Capibaribe. Quanto mais ele falava, mais eu percebia que existia ali uma oportunidade de fazer algo diferente. No final daquela conversa, eu já estava convencido.

Evandro: E você entrou de cabeça?

Neto: Como tudo na minha vida. Quando eu acredito numa ideia, entro de corpo e alma. Não sei fazer diferente.


Neto não entrou na política para fazer o que todo mundo fazia. Ele entrou para fazer diferente. E logo na primeira campanha, ficou claro que aquele rapaz enxergava comunicação de um jeito que poucos enxergavam.

Evandro: Foi aí que nasceu a famosa Locomotiva 40100 da Vitória?

Neto: Foi. Naquela época, os programas eleitorais de rádio tinham um espaço para os vereadores chamado proporcional. O normal era o candidato simplesmente falar ao microfone durante o tempo dele. Mas eu queria criar algo diferente. Minha ideia era fazer um guia dentro do guia.

Evandro: Um guia dentro do guia?

Neto: Exatamente. Enquanto a maioria fazia apenas discurso, nós construímos uma narrativa. Criamos identidade, emoção, ritmo, trilha e linguagem. Pegamos aqueles cerca de dois minutos e trinta e cinco segundos e transformamos em uma experiência para quem estava ouvindo. Foi assim que nasceu a Locomotiva 40100 da Vitória.

Evandro: Você lembra daquele material?

Neto: Como se fosse hoje. Existem trabalhos que marcam a vida da gente. Aquele foi um deles.

O resultado confirmou a aposta. Diogo Moraes foi eleito vereador com 2.644 votos. Para muita gente, era apenas mais uma vitória eleitoral. Para Neto Spinelly, era o primeiro vagão de uma longa locomotiva.


Dois anos se passaram. Spinelly seguia sua vida. Até que o telefone tocou.

Evandro: O que Diogo queria?

Neto: Disse que seria candidato a deputado estadual.

Evandro: E qual foi sua reação?

Neto: Eu respondi na hora: "Tu tá ficando maluco?"

(risos)

Evandro: E o que ele respondeu?

Neto: Nunca esqueci. Ele disse: "Dois doidos, se tu topar vir."

Evandro: E você foi.

Neto: Eu fui. E ganhamos. Naquela eleição, Diogo conquistou 36.246 votos para deputado estadual. Foi a confirmação de que aquele projeto que começou numa conversa simples na casa de Dona Marita estava apenas começando.

A partir dali, o nome de Neto Spinelly começou a rodar. Cidades diferentes. Estados diferentes. Histórias diferentes. Mas sempre com a mesma marca.


Evandro: O que tinha de diferente no seu trabalho?

Neto: Eu nunca enxerguei campanha apenas como propaganda. Sempre enxerguei como uma história que precisava ser contada. Eu procurava emoção, identidade, verdade. Queria que as pessoas lembrassem do candidato, não apenas da música ou do número.

Essa filosofia levou Spinelly a trabalhar com nomes como Hilário Paulo, em Brejo da Madre de Deus; Patriota e Alessandro Palmeira, em Afogados da Ingazeira; Edson Vieira, em Santa Cruz do Capibaribe; Soraya Morioka, em Flores. Passou por Aracaju, Marabá e diversas cidades do interior nordestino. Ao longo dos anos, também foi voz de campanhas de rádio e televisão de destaque — incluindo, com visível orgulho, a campanha da atual prefeita de Olinda.

Cada campanha, segundo ele, deixou uma lição.


Evandro: Você ganhou muitas eleições. Mas também perdeu algumas.

Neto: E ainda bem.

Evandro: Ainda bem?

Neto: Sim. Porque a derrota ensina coisas que a vitória nunca ensina. Ganhar é maravilhoso. Mas perder obriga você a refletir, corrigir erros e amadurecer.

Evandro: O gosto da derrota é ruim?

Neto: É amargo. Muito amargo. Mas também é um excelente professor.


De todas as parcerias construídas ao longo desses anos, uma se destaca. E não é por acaso.

Evandro: Entre todas as campanhas que você fez, existe algo especial quando o assunto é Diogo Moraes. O que faz essa parceria ser diferente?

Neto: Confiança. Diogo sempre me deu liberdade para criar. Nunca foi aquele político que quer controlar cada detalhe. Muitas vezes eu chegava para gravar e ele simplesmente dizia: "Faça do seu jeito."

Evandro: Isso é raro?

Neto: Muito raro.

Evandro: E aumenta a responsabilidade?

Neto: Demais. Porque quando alguém deposita confiança em você, você quer entregar sempre o melhor.


Mas nem toda parceria caminha sem tropeços. E Spinelly não foge desse capítulo.

Evandro: Houve um período em que vocês se afastaram.

Neto: Sim. Foi durante uma campanha municipal. Naquela época, Diogo estava vivendo um período mais sabático. Quase não atendia telefone, estava mais reservado, mais recolhido. Fazia bastante tempo que não conversávamos.

Evandro: E surgiu um convite.

Neto: Surgiu. Faltavam poucos dias para começar a campanha e eu ainda não tinha fechado contrato com ninguém. Meu filho Jorge estava para nascer dali a alguns meses. O estúdio atravessava dificuldades e o país vivia um momento complicado. Recebi uma proposta do grupo adversário e aceitei.

Evandro: Foi uma decisão difícil?

Neto: Muito difícil. Eu sabia que aquilo poderia trazer consequências para uma amizade construída ao longo de muitos anos. Mas naquele momento eu também precisava pensar na minha família, nos compromissos que tinha e na responsabilidade de manter tudo funcionando.

Evandro: E isso gerou uma mágoa?

Neto: Gerou. E eu entendo perfeitamente. Porque amizade também sente. Amizade também se machuca. Quando existe respeito e consideração de verdade, algumas decisões deixam marcas. Mas o tempo também ensina, amadurece e ajuda a colocar as coisas no lugar.


O tempo passou. E com ele, a maturidade falou mais alto.

Evandro: Depois de anos sem conversar, vocês voltaram a se encontrar. Foi difícil?

Neto: Não. Quando existe respeito verdadeiro, as conversas acontecem naturalmente.

Evandro: E a parceria voltou?

Neto: Na mesma hora.

Evandro: Como se o tempo não tivesse passado?

Neto: Exatamente.

Três palavras. Simples assim. Mas carregadas de tudo que uma amizade de quase vinte anos pode carregar.


Agora, Neto Spinelly e Diogo Moraes voltam a caminhar juntos. E para Spinelly, isso tem um peso que vai além do profissional.

Evandro: Por que essa campanha tem um significado especial?

Neto: Porque hoje sou um profissional muito diferente daquele rapaz que entrou na casa de Dona Marita para conversar com um candidato a vereador. Hoje tenho mais experiência, mais maturidade, mais histórias para contar. Mas continuo com a mesma paixão.

Evandro: Você costuma dizer que política são suas férias.

Neto: Eu sempre digo isso. E as pessoas acham engraçado. (risos) Mas é verdade. Eu amo campanha. Amo a adrenalina. Amo o desafio. Amo construir mensagens que chegam às pessoas.

Evandro: Você acredita que está chegando ao final de um ciclo?

Neto: Talvez. Acho que esta campanha e a próxima eleição municipal podem representar os últimos grandes capítulos dessa trajetória. Todo ciclo tem seu tempo.

Evandro: E como você quer encerrar essa história?

Neto: Fazendo a melhor campanha da minha vida. Porque algumas histórias merecem um grande capítulo final. E se eu entrei de cabeça na comunicação política, foi porque um dia Diogo Moraes acreditou em mim. Foi ele quem me convenceu a embarcar naquela primeira viagem. E agora, tantos anos depois, quero retribuir essa confiança fazendo o melhor trabalho da minha carreira.


No final da conversa, uma pergunta simples. E uma resposta à altura.

Evandro: Depois de tantas campanhas, tantas cidades, tantas vitórias, algumas derrotas, tantos quilômetros rodados e tantas histórias contadas — qual frase resume sua trajetória na política?

Neto Spinelly:

"Tudo começou na Locomotiva 40100 da Vitória. O que era para ser apenas uma campanha de vereador acabou se transformando numa jornada de quase vinte anos. E enquanto houver uma boa história para contar, essa locomotiva continuará seguindo em frente."

A locomotiva segue. E enquanto Neto Spinelly tiver um microfone na mão e uma história para contar, ela não para.

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